segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma visão histórica do Romantismo

Romantismo é designação duma época determinada da História da Cultura - época mais ou menos longa, que, no caso português, abrange, conforme os pontos de vista:

1) de cerca de 1770, quer dizer, do Pré-Romantismo aos nossos dias, entendendo-se, pois, o Realismo, o Simbolismo, o Modernismo como desdobramentos ou fases evolutivas dum primeiro Romantismo, consequência duma progressiva desagregação espiritual que arrasta o cerebralismo puro e, em contraste, a pura expansão das forças irracionais;

2) de cerca de 1770 a 1865, data em que se produz a chamada Questão Coimbrã, primeira afirmação de rebelião da geração que fará o Realismo português;

3) excluído o Pré-Romantismo, - de 1825, data de publicação do poema Camões de Garrett, já de intenção romântica, a 1865. Alguns distinguem ainda entre Romantismo (no conceito mais restrito) e Ultra-Romantismo, que seria o período final, com os excessos que caracterizam a dissolução da escola; mas não parece fácil delimitar cronologicamente os dois conceitos, e mais convirá considerar «romantismo» e «ultra-romantismo» duas facetas paralelas, simultâneas, dum movimento único.

O que sucede é que os chefes de fila do Romantismo português (embora caindo por vezes nos defeitos que verberam) procuram manter-se sobranceiros ao folhetinesco, ao melodramático, à mecanização de processos expressionais - pechas que pejorativamente rotulam de «ultra-românticas». E esses perigos não cessam de ameaçar o Romantismo ao longo da sua duração, apesar de Garrett, em 1844, os julgar conjurados: o público estaria cansado de «estimulantes violentos».

 A palavra será retomada por Camilo Castelo Branco, que virá a pôr de lado as receitas de «terror grosso» com que fabricou os Mistérios de Lisboa e o Livro Negro do Padre Dinis. Os mentores do Romantismo português procuram uma posição independente, equilibrada, de certo modo «anti-romântica».

Rigorosamente, só depois de 1836, quando as feridas causadas pelas lutas entre miguelistas e liberais começam a cicatrizar, o Romantismo se constitui em Portugal, como escola com os seus adeptos menores, as suas revistas, o seu público. Até lá, assistimos a tentativas isoladas, prefiguram-se casos individuais de pioneiros: Garrett canta a Saudade, idealiza um Camões romanesco, joguete do Destino, recusa as ficções pagãs, inspira-se nos romances populares (Camões, 1825, D. Branca, 1826, Adozinda, 1828). [...] Herculano, poeta em verdes anos, põe em versos austeros as fundas experiências do exílio e dos combates pela Liberdade, canta Deus e a Pátria (A Harpa do Crente, 1838).

O Romantismo português participa, está claro, das características do Romantismo europeu em geral.

O culto do diferente explica a literatura confessional, em que o eu liricamente se exibe na singularidade dos sentimentos e da imaginação, como explica ainda o nacionalismo estético, a valorização do que distingue uma cultura regional de todas as outras, logo o apreço do tradicional e do popular («Este é um século democrático - proclama Garrett -; tudo o que se fizer há-de ser pelo povo e com o povo»). E determina do mesmo passo o gosto de evocar a Idade Média (o distante no tempo, época de mais livre expansão dos impulsos, com o prestígio do ideal cavalheiresco) e o gosto exótico (o distante no espaço).
Algumas vezes aflora, segundo a ideia de Rousseau, a ideia da bondade natural do indivíduo, pervertido e constrangido pela sociedade (nas Viagens na Minha Terra de Garrett, por exemplo); Camilo Castelo Branco defende contra a sociedade os direitos dos que amam; mas a nota dominante é a do espiritualismo cristão, metafísica do pecado, da penitência e do resgate (Eurico O Presbítero, de Alexandre Herculano, Fr. Luís de Sousa, Romance dum Homem Rico, de Camilo Castelo Branco), de mistura com o fatalismo radicado na mente popular e na literatura.

Na temática da poesia e da ficção, a par do amor platónico, aspiração à mulher-anjo, como a Dulce d' O Bobo, de Alexandre Herculano, abundam os sentimentos fortes, carregados - ciúme, vingança, desespero -, a exigirem o estilo exclamativo, «frenético». Aliás, não faltam os contemplativos, que procuram no seio da natureza os prazeres da melancolia e os pressentimentos dum além-mundo.

O Romantismo constitui, por outro lado, uma tomada de consciência, a conquista dum senso histórico (Herculano e discípulos) e dum senso crítico novo aplicado aos fenómenos da cultura. Começa-se a relacionar o Homem com o meio a que pertence, a época de que é produto. O instável Carlos das Viagens na Minha Terra é expoente duma época de crise, um moderno que sofre de duplicidade amorosa e acaba por se emburguesar, passando de alma sensível a barão; o próprio Camilo, conquanto mais interessado pelas almas que pelas realidades sociais, satiriza com aguda visão tipos e costumes dum Portugal em metamorfose (por ex., em A Queda dum Anjo).

Entretanto podemos apontar alguns traços que dão fisionomia particular ao Romantismo português: estreitamente ligado à Revolução liberal de 1820, à emigração, à vitória sobre os miguelistas e à reforma das instituições, teve a chefiá-lo patriotas como Garrett e Herculano, homens que entendiam a literatura como tarefa cívica, meio de acção pedagógica; cumpre notar que Portugal era um pequeno país decaído, humilhado, saudoso da grandeza perdida, e que portanto esses patriotas, confiantes nas virtudes da Liberdade, se propunham contribuir decisivamente para um renascimento pátrio; o espírito iluminístico, de racionalização da ordem social e difusão de «conhecimentos úteis», encontrou atmosfera propícia depois de 1820, e sobretudo depois da Revolução de Setembro (1836); aliás os mentores do Romantismo português revelaram-se homens de bom-senso, de alicerces clássicos, inimigos de excessos, sem propensão mística, sem alardes messiânicos, antes de pés fincados na terra; note-se que lutaram contra a desmesura e a trivialidade «ultra-românticas», que lamentaram a enxurrada de traduções de novelas francesas, factor de corrupção da língua vernácula e de dissolução da moral portuguesa antiga (isto apesar de um Garrett, um Camilo até, não hesitarem em actualizar a língua incorporando nela modos de dizer alienígenas).

Feito um balanço, teremos de assinalar um exagerado historicismo (sobretudo medievalismo, ingenuamente convencional no teatro e no solau), que por demais desviou a atenção da realidade contemporânea; abundante, monótona produção lírica, muito prejudicada pela afectação piegas e pela estética da espontaneidade, do coração «ao pé da boca» (espontaneidade que o autor das Folhas Caídas, homem de apurado gosto, habilmente simulou sem de facto a praticar); frouxa crítica literária, se a confrontarmos com a de outros países. [...] restaurou-se o teatro, chegando Garrett a escrever uma verdadeira obra-prima, o Frei Luís de Sousa, drama romântico imbuído do espírito helénico, de trágica simplicidade; [...]

In COELHO, Jacinto do Prado - Dicionário de literatura. 3ª edição. 3º volume. Porto : Figueirinhas, 1979 (adaptado)

O termo e o conceito de romântico

O vocábulo "romântico", tal como "barroco" ou "clássico", apresenta uma história complexa. Do advérbio latino romanice, que significava «à maneira dos romanos», derivou em francês o vocábulo romanz, escrito rommant depois do século XII e roman a partir do século XVII. A palavra rommant designou primeiramente a língua vulgar, por oposição ao latim, tendo vindo depois a designar também uma certa espécie de composição literária escrita em língua vulgar, em verso ou em prosa, cujos temas consistiam em complicadas aventuras heróicas ou corteses.

No século XVII, o adjectivo inglês romantic significa «como os antigos romances», e pode qualificar uma paisagem, uma cena ou um monumento - [...] -, ou pode oferecer um significado estético-literário. [...]

Não admira que na atmosfera racionalista que envolve a cultura europeia desde os finais do século XVII, o vocábulo romantic passe a significar quimérico, ridículo, absurdo - qualidades (ou defeitos) que se atribuíram precisamente aos romances e poemas romanescos, quer na literatura medieval, quer de Ariosto, de Boiardo, etc. Tal como "gótico", romântico designa, na época do iluminismo, tudo o que é produzido pela imaginação desordenada, aquilo que é inacreditável e que reflecte um gosto artístico irregular e mal esclarecido.

No entanto, a par deste significado pejorativo, a palavra que vimos a analisar oferece no século XVIII um outro sentido: à medida que a imaginação adquire importância e à medida que se desenvolvem formas novas de sensibilidade, romantic passa a designar o que agrada à imaginação, o que desperta o sonho e a comoção da alma, aplicando-se às montanhas, às florestas, aos castelos, etc. Nesta acepção - que, como foi dito acima, já remonta ao século XVII -, foi-se obliterando a conexão do vocábulo com o género literário do romance, tendo vindo romantic a exprimir sobretudo os aspectos melancólicos e selvagens da natureza.

O vocábulo inglês romantic era vertido para francês ora por romanesque, ora por pittoresque. Em 1776, porém, Letourneur, no prefácio da sua tradução da obra de Shakespeare, distingue romantique de romanesque e de pitoresque, analisando os respectivos matizes semânticos e expondo os motivos que levaram a preferir romantique, «palavra inglesa»: o vocábulo, segundo Letourneur, «encerra a ideia dos elementos associados de uma maneira nova e variada, própria para espantar os sentidos», evocando, além disso, o sentimento de terna emoção que se apodera da alma perante uma paisagem, um monumento, uma cena, etc. Em 1777, o marquês de Girardin, na sua obra De la composition des paysages, usa igualmente o adjectivo romantique, mas a palavra adquire definitivamente direito de cidadania na língua francesa, quando Rousseau, num passo famoso das suas Rêveries d'un promeneur solitaire, escreve que «as margens do lago de Bienne são mais selvagens e românticas do que as do lago de Genebra». Através do francês, o vocábulo penetrou depois noutras línguas, como o espanhol e o português.
Voltemos, todavia, ao significado literário da palavra romântico, que, como ficou acima exposto, está já documentado no século XVII. O vocábulo romantic reaparece, com um sentido similar ao que apresenta no texto já mencionado de Rymer, na History of english poetry (1774) de Thomas Warton, cuja introdução se intitula «The origin of romantic fiction in Europe». Para Warton, o termo romantic designa a literatura medieval e parte da literatura que se afasta da literatura renascentista (Ariosto, Tasso, Spenser), isto é, uma literatura que se afasta das normas e convenções vigentes na literatura greco-latina e no neoclassicismo. [...]

A par deste conceito latamente histórico de literatura romântica, aparece também com frequência, no início do século XIX, um conceito de romantismo, corporizado principalmente na oposição clássico-romântico.

Goethe reivindicou a paternidade desta famigerada distinção, mas foi indubitavelmente August Wilhelm Schlegel quem, inspirando-se em boa parte na oposição estabelecida por Schiller entre poesia ingénua e poesia sentimental, elaborou a mais sistemática e mais influente exposição sobre as diferenças existentes entre a arte clássica e a arte romântica. Na décima terceira lição do seu Curso de literatura dramática, A. W. Schlegel caracteriza a arte clássica como uma arte que exclui todas as antinomias, ao contrário da arte romântica, que se compraz na simbiose dos géneros e dos elementos heterogéneos: natureza e arte, poesia e prosa, ideias abstractas e sensações concretas, terrestre e divino, etc.; a arte antiga é uma espécie de «revelação harmoniosa de um mundo ideal em que se reflectem os arquétipos eternos das coisas», ao passo que a poesia romântica «é expressão de uma misteriosa e secreta aspiração pelo Caos incessantemente agitado a fim de gerar novas e maravilhosas coisas»; a inspiração da arte clássica era simples e clara, diferentemente do génio romântico que, «apesar do seu aspecto fragmentário e da sua desordem aparente, está contudo mais perto do mistério do universo, porque, se a inteligência jamais pode apreender em cada coisa isolada senão uma parte da verdade, o sentimento, em contrapartida, ao abranger todas as coisas, compreende tudo e em tudo penetra».

Nas literaturas espanhola e portuguesa, aparecem os primeiros grupos românticos durante a terceira década do século XIX, concomitantemente com a instauração de regimes liberais nos dois países da Península Ibérica e com o regresso de exilados que, na França e na Inglaterra, haviam conhecido as novas tendências estético-literárias.

In AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de - Teoria da literatura. 4ª edição. Coimbra : Livraria Almedina, 1982 (adaptado)

O idealismo alemão e o romantismo

O mundo romântico, diferentemente do mundo humanístico e do mundo iluminista, está radicalmente aberto ao sobrenatural e ao mistério, pois representa apenas «uma aparição evocada pelo espírito». Tudo o que é visível e palpável não representa o real verdadeiro, pois que o autêntico real não é perceptível aos sentidos. O verdadeiro conhecimento exige que o homem desvie o olhar de tudo quanto o rodeia e desça dentro de si próprio, lá onde mora a verdade tão ansiosamente procurada: «É para o interior que se dirige o caminho misterioso. Em nós, ou em parte nenhuma, estão a eternidade e os seus mundos, o futuro e o passado. O mundo exterior é o universo das sombras», conclui Novalis.

In AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de - Teoria da literatura. 4ª edição. Coimbra : Livraria Almedina, 1982 (adaptado)

Prometeu - uma figura mítica dos românticos

 
A aventura do eu romântico apresenta uma feição de declarado titanismo, configurando-se o herói romântico como um rebelde que se ergue, altivo e desdenhoso, contra as leis e os limites que o oprimem, que desafia a sociedade e o próprio Deus.

Prometeu é a figura mítica que os românticos frequentemente exaltam como símbolo e paradigma da condição titânica do homem, pois que, tal como Prometeu, é o homem um ser em parte divino, um «turvo rio nascido de uma fonte pura», cujo destino é urdido de miséria, solidão e rebeldia, mas que triunfa deste destino pela revolta e transformando em vitória a própria morte, como proclamou Byron: «Na tua paciente energia, na resistência e na revolta do teu invencível Espírito, que nem a Terra nem o Céu puderam abalar,
herdámos nós uma poderosa lição; tu és para os Mortais um símbolo e um sinal do seu destino e da sua força. Como tu, o Homem é em parte divino, um turvo rio nascido de uma fonte pura; e o Homem pode prever fragmentariamente o seu destino mortal, a sua miséria, a sua revolta, a sua triste existência solitária, ao que o seu Espírito pode opor a sua essência à altura de todas as dores, uma vontade firme e uma consciência profunda que, mesmo na tortura, pode descobrir a sua recompensa concentrada em si própria, pois que triunfa quando ousa desafiar e porque faz da Morte uma Vitória. [...]

In AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de - Teoria da literatura. 4ª edição. Coimbra : Livraria Almedina, 1982

O exotismo e o medievalismo

Profundamente desgostado da realidade circundante - encarnação do efémero, do finito e do imperfeito -, em conflito latente ou declarado com a sociedade, lacerado pelos seus demónios íntimos, o romântico procura ansiosamente a evasão: evasão no sonho e no fantástico, na orgia e na dissipação, ou evasão no espaço e no tempo.

A evasão no espaço conduz ao exotismo, ao gosto pelos costumes e paisagens de países novos e estranhos, e, por vezes, ao gosto pelo bárbaro e primitivo.

O exotismo revelara-se já na literatura pré-romântica, mas desenvolveu-se grandemente com os românticos, satisfazendo ao mesmo tempo os seus anseios de evasão e a exigência da verdade na pintura do homem e dos seus costumes. Por isso mesmo, a cor local, ou seja a reprodução fiel e pitoresca dos aspectos característicos de um país, uma região, uma época, etc., constitui um dos recursos mais vulgarizados na arte romântica.
Entre os países europeus, a Itália e a Espanha, países de paisagens e costumes tão característicos, de contrastes violentos e de paixões exaltadas, representaram as grandes fontes europeias do exotismo romântico; fora da Europa, o Oriente, com o seu mistério, o fascínio das suas tradições, das suas cores e dos seus perfumes, transformou-se no mito central do exotismo dos românticos.

A evasão no tempo conduziu à reabilitação e à glorificação da Idade Média, época histórica particularmente denegrida pelo racionalismo iluminista. A Idade Média atraía a sensibilidade e a imaginação românticas pelo pitoresco dos seus usos e costumes, pelo mistério das suas lendas e tradições, pela beleza nostálgica dos seus castelos, pelo idealismo dos seus tipos humanos mais relevantes - o cavaleiro, o monge, o cruzado... -, mas solicitava também o espírito dos românticos por outras razões mais poderosas.

As primeiras gerações românticas europeias apresentam-se impregnadas, em larga medida, de uma ideologia reaccionária, contraposta aos princípios revolucionários de 1789 e ao racionalismo ateu do «século das luzes». Para estes românticos, católicos e anti-revolucionários, a Idade Média representava uma época de segurança e de estabilidade política, social e cultural, que se contrapunha à tendência individualista e desagregadora do liberalismo europeu, herdeiro da Revolução Francesa. Friedrich Schlegel, por exemplo, opõe a solidez orgânica e a saúde moral da sociedade medieva, fundamentada nos princípios cristãos, à anarquia e ao individualismo pagão dos tempos modernos. [...]

In AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de - Teoria da literatura. 4ª edição. Coimbra : Livraria Almedina, 1982

A religiosidade romântica

A valorização do inconsciente, da intuição e das faculdades místicas constitui, como temos referido, um aspecto importante do romantismo. A revivescência do ideal religioso, após o parcial eclipse das crenças religiosas gerado pelo racionalismo iluminista, integra-se nesta vaga de misticismo e de arracionalismo românticos.

Visceralmente individualista e egotista, o romântico dificilmente aceita uma ortodoxia baseada num corpo de dogmas e garantida pela autoridade de uma hierarquia. A sua religiosidade é preponderantemente de natureza sentimental e intuitiva; o seu diálogo com a divindade tende a dispensar a mediação do sacerdote e o formalismo dos ritos,
desenrolando-se na intimidade da consciência. Na senda da «Profession de foi du vicaire savoyard» de Jean-Jacques Rousseau, os românticos descobriram e cultuaram Deus nos astros e nas águas do mar, nas montanhas e nos prados, no vento, nas árvores e nos animais, em tudo o que existe nas intérminas plagas do universo. O panteísmo representa, com efeito, a forma de religiosidade mais frequente entre os românticos. [...]

In AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de – Teoria da literatura. 4ª edição. Coimbra : Livraria Almedina, 1982

Formas e estilo

O romantismo libertou a criação literária das coacções advindas das regras, condenou a teoria neoclássica dos géneros literários, reagiu violentamente contra a concepção dos escritores gregos e latinos como autores paradigmáticos, fonte e medida de todos os valores artísticos.

Muitas formas literárias características do neoclassicismo, tais como a tragédia, as odes pindáricas e sáficas, a écloga, etc., entraram em total decadência no período romântico, ao passo que se desenvolveram singularmente formas literárias novas como o drama, o romance histórico, o romance psicológico e de costumes, a poesia intimista e a poesia filosófica, o poema em prosa, etc.

A língua e o estilo transformaram-se profundamente, enriquecendo-se em particular no domínio do adjectivo e da metáfora. A linguagem literária abandonou os artifícios expressivos de origem mitológica, verdadeiros tópicos da tradição literária dos séculos anteriores, já surrados e desprovidos de qualquer capacidade poética, ao mesmo tempo que se aproximava da realidade e da vida: «Sem renunciar à sintaxe e à disciplina poética, o romântico reagiu, em geral, contra a tirania da gramática e combateu o estilo nobre e pomposo, que considerava incompatível com o natural e o real, e defendeu o uso de uma língua libertada, simples, sem ênfase, coloquial, mais rica». Igual tendência para a liberdade se verificou no domínio da versificação.

In AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de - Teoria da literatura. 4ª edição. Coimbra : Livraria Almedina, 1982

Características do Romantismo

Quanto ao público que lê:

a) Democratização.

Deixa a nova literatura de ser só para reis, para fidalgos ou para círculos fechados de eruditos e torna-se a literatura do povo. O livro de cordel, o jornal, o romance picaresco, até mesmo o D. Quixote de Cervantes tinham arroteado o caminho a seguir pela obra romântica, entusiasmando a burguesia. Para esta classe, ávida de ler, se destina a literatura do Romantismo. Os burgueses é que vão ser os seus consumidores mais assíduos.

O povo humilde continuará analfabeto. [...]

Mas pelo menos é curioso constatar que a poesia das décadas de 1840 e 1850 e sobretudo a ultra-romântica invadiu o interior das famílias burguesas, ficando profundamente ligada ao mundanismo, à vida cívica: escreviam-se versos em álbuns, acompanhavam-se poemas a canto e piano nos salões, havia recitais poéticos em festas de beneficência e patrióticas, promoviam-se saraus literários.

Foi por este motivo que se assistiu então a uma típica «aculturação» da mulher burguesa com a aprendizagem da língua francesa e da música.

b) Tom de mensagem ao próximo.

A obra literária não é já um mundo fechado de valores para eleitos; é uma comunicação franca de ideias práticas e vitais a todo o leitor. Envereda até, uma vez ou outra, pelos caminhos da denúncia social e do empenhamento político.

Quanto ao génio criador


Vai notar-se o predomínio da emoção, do sentimento sobre a razão e o espírito ordenador dos clássicos; isto é, vai sobrepor-se o culto do «eu» e dos direitos do coração às imposições orientadoras da inteligência (reacção contra o racionalismo clássico).

Quanto aos temas


a) Culto da Idade Média. O «historicismo».


O Romantismo deixou de ter admiração por tudo quanto era greco-romano e baniu de vez o uso da mitologia. A Idade Média, tempo admirável em que o povo ajudava os reis a criar nações e em que os mesteirais, organizados em corporações, tinham iniludível valor político-social, seduziu com as suas narrações cheias de peripécias os românticos, visceralmente opostos aos absolutismos e partidários em política da soberania do povo.

Esta evasão para os tempos medievos proporcionou aos escritores o contacto com lugares, factos e tipos capazes de inspirarem a imaginação mais fria: castelos musgosos, lendas e tradições, cavaleiros, monges, cruzados, mouros, judeus.

Note-se, porém, que os temas de actualidade não foram esquecidos (por exemplo em Viagens na Minha Terra de Garrett) e até estiveram em voga nas poesias revolucionárias dos epígonos do Romantismo, para só falarmos no caso português.

b) Novo modo de ver a paisagem.

À idealização do «locus amoenus» prefere o romântico a descrição do «locus horrendus», e bem carregada nas tintas.

Despreza, por isso, o bucolismo de «ervas verdes e águas cristalinas» e o entusiasmo vai-lhe todo para a paisagem agreste, exótica, para a selva virgem com sua típica desordem, com suas asperezas e impetuosidades, com suas cataratas e rios caudalosos. A paisagem nocturna, sepulcral, luarenta, é a que melhor se adapta aos sentimentos melancólicos dos autores. Às vezes, num semipanteísmo, o romântico vê-se embebido na mesma paisagem, a fazer um todo com ela e com ela identificando o seu estado de espírito. Ela como que se transfigura em símbolos. O poeta romântico tem com ela uma espécie de contacto sensual que quase o leva ao êxtase.

c) Preferência pelo homem na sua realidade total.

Sabemos que a beleza para o escritor clássico residia na imitação da natureza, não no particular, mas no universal. Em vez de criar tipos verosimilhantes aos seres individualizados e reais, idealizava seres com todas as perfeições e sem quaisquer defeitos.

O autor romântico procede de maneira diferente: movimenta nas suas obras todos os tipos humanos. Sente gosto em referir com pormenor os traços individuais dos heróis, não tendo pejo de colocar ao lado de pessoas sãs os marginais, os fora de lei, os aleijões tanto morais como físicos: o ladrão, o pirata, o assassino, o traidor, o perjuro, o incestuoso, o adúltero, a prostituta, o sacrílego, o cego, o corcunda, o mutilado. Às vezes, não teme aliar a elevação de sentimentos à hediondez física (como acontece, por exemplo, em personagens muito conhecidas: o sineiro Quasimodo de Nossa Senhora de Paris, de Vítor Hugo, e o jardineiro Belchior de A Escrava Isaura, de Bedrnardo Guimarães).

d) Intimismo e melancolia. Evasão.

Desde Bernardim Ribeiro e Rodrigues Lobo que o romance português vinha explorando uma melancolia patológica, a oscilar entre o pessimismo confessado e os desejos de um contentamento e de uma satisfação sempre longínquos. Agora, porém, mais do que nunca vai o homem romântico expandir o que nele há de mais pessoal e íntimo, a começar pela sensibilidade e voos da fantasia e a acabar nos impulsos do subconsciente. Daí que, ao contrário dos clássicos, sinta doce volúpia no sofrimento e prefira registar situações de dor e de melancolia, e ambientes de nebulosidade nórdica como o entardecer, o escurecer, a noite, as florestas sombrias, as cavernas, as ruínas, os agouros, os sonhos, a morte. A personagem romântica, mergulhada nesta melancolia pessimista, procura evadir-se umas vezes para o além-morte através do suicídio, outras vezes para o convento, o sacerdócio, a solidão, a loucura.

e) Exaltação do que é nacional e popular.

A cultura francesa do século XVIII tinha unificado espiritualmente a Europa; Napoleão Bonaparte tentou a unificação política. Como reação, os escritores românticos procuram exaltar tudo quanto é nacional, tudo quanto é popular. E creem que a alma dos nacionalismos europeus incarnou no povo da Idade Média e no povo se tem mantido inalterada. O popular e o folclórico adquirem, desta maneira, um grande prestígio junto da nova escola.

Foi por isso que a literatura romântica cedo adquiriu um carácter cívico e patriótico e enveredou a pouco e pouco pelo historicismo, tratando com muito carinho figuras nacionais.

Quanto aos aspetos formais

a) Independência criativa.

O génio criador agora não pode estar sujeito a normas férreas, como eram as da estética clássica. Essas normas são totalmente banidas, pois convertem a arte num puro mecanismo. O escritor romântico voa nas asas da imaginação, dos seus sentimentos e instintos. Criará obra estritamente pessoal. Não admite mais a divisão dos géneros clássicos. Com exceção do soneto, que conserva, inventa novos agrupamentos estróficos. E introduz também o verso livre. Opõe-se tenazmente à imitação paradigmática dos escritores gregos e romanos.
 
Confronto entre as tendências do Classicismo e do Romantismo:



Classicismo

Romantismo
  A razão, a inteligência
  O coração, a sensibilidade, a imaginação
  O geral, o universal
  O particular, o individual
  O objetivo, o impessoal
  O subjetivo, o pessoal
  A vontade, o heroísmo
  A melancolia, o abatimento
  A inteligência, as abstrações
  As sensações, a sensibilidade
  A clareza, a ordenação
  O mistério, o sonho, a meditação
O paganismo  
  O cristianismo
  O culto da antiguidade greco-latina
  O culto da Idade Média e dos tempos modernos
  O aristocrático, o nobre, o tradicionalista
  O popular, o pitoresco, a paisagem 
 
In Barreiros, António José – História da literatura portuguesa. Vol. II. 13ª edição. Braga : Livraria Editora Pax, 1992 (adaptado)

 

História em continuação - episódio 11

Quando vinha da escola pelo atalho do costume, um caminho que cortava pelo meio de um terreno meio selvagem que no inverno ficava empapado de lama, o Pedro deu com um pedregulho que não lhe era familiar naquele sítio. Das tantas e tantas vezes que por ali tinha passado já conhecia todas as pedras do caminho, ao ponto de quase as tratar pelo nome.  Com algum esforço, revirou-o e deu com uma data de maços de notas de 500 euros. Nunca tinha visto sequer uma nota de quinhentos, quanto mais uma quantidade destas. De quem seria aquele dinheiro? Quem o teria ali deixado? Quanto é que estaria ali no total? Uma fortuna, certamente.
Olhou para um lado e outro para ver se não vinha ninguém e se não estava a ser observado. Agachou-se e colocou a sua mochila ao lado dos maços. Começou então a empurrá-los para o seu interior.
Depois de tudo muito bem arrumado, o Pedro seguiu pelo seu caminho habitual, em direção a casa. Com os fones nos ouvidos, tentava o seu melhor para evitar pensar na pesada quantidade de dinheiro que guardava consigo dentro da mochila.
Mas era tão difícil… No meio de um turbilhão de pensamentos, entendeu que estava mais perto ainda do que pensava de chegar ao seu destino. E no fim, de tão distraído que ia, a pensar em não pensar, quase foi atropelado por um carro que passava na rua. A passadeira estava claramente à sua frente, mas ia tão distraído que até se esqueceu de ver se vinha algum carro para poder no fim atravessar a rua. O susto, pelo menos, pareceu trazê-lo de volta à realidade. Talvez isso tivesse acontecido devido à buzinadela estridente que ouviu, ou talvez pelo olhar fixo do condutor que não saía de cima dele, mesmo depois de Pedro ter atravessado a passadeira e ficar mais e mais perto de casa.- Mas que mal disposto… - murmurou o rapaz.
Apesar do susto, o Pedro continuou absorvido nos seus pensamentos. Que atitude iria ter quando chegasse a casa? Contava aos pais? Guardava o dinheiro num lugar seguro ou entregava-o simplesmente à polícia? Tantas questões e nenhuma resposta.
Com estas dúvidas na sua cabeça, o rapaz relembrou o olhar fixo do condutor, não imaginando sequer que este o continuava a perseguir. Ao chegar a casa e estando sozinho, foi a correr para o quarto, fechando a porta. Sentou-se na cama, abriu a mochila e retirou o dinheiro de dentro dela, arregalando os olhos:- Onde irei guardar este dinheiro todo? Não me recordo de ter apanhado tanto. Fixando o olhar no monte de dinheiro, decidiu ir buscar uma folha e uma caneta, para fazer uma lista das ideias que tinha, mas eram tantas que não sabia por onde começar.
Sentou-se em frente à secretária e rapidamente começou a passar para o papel todas as ideias que lhe surgiam:
• “Fazer uma viagem pelo mundo;”
• “Ajudar a minha família;”
• “Ter uma grande casa...”
Estava de tal forma contente que até parecia uma criança dentro de uma loja de doces.
A excitação era tanta, devido à possibilidade de puder vir a concretizar todos os seus sonhos, que até se esqueceu que ainda tinha que resolver um problema: onde iria esconder as notas?
De repente veio-lhe à memória a imagem do condutor que quase o tinha atropelado. Sentiu um arrepio. Algo lhe dizia que aquele homem não era boa pessoa.
Pedro pensou, pensou, voltou a pensar, e não lhe ocorria nenhuma ideia de onde guardar o dinheiro. Olhou para um lado e para o outro, e de repente fez-se um "clique" na cabeça dele. Deitou um olhar fixo ao urso de peluche e teve uma ideia brilhante:
- Ainda bem que a avó me ensinou a coser.
Rapidamente descoseu o peluche e substituiu o algodão pelas notas. Coseu o urso e pensou que assim ninguém iria saber de nada.
À hora do jantar, quando já estavam todos sentados à mesa, a mãe perguntou-lhe:
- Depois podes levar-me aqueles bolinhos ao novo vizinho?
- Estás sempre a dar coisas aos outros, mãe. Já viste que ninguém te dá nada? - disse ele.
A mãe, estupefacta com a resposta do filho, disse logo:
- Eu não faço isto para me darem algo em troca, Pedro! E fico muito triste que penses assim, porque não foi essa a educação que te dei.
Quando acabou de comer, Pedro foi a casa do novo vizinho. Tocou à campainha e, para seu espanto, quem abriu a porta foi o condutor que quase o tinha atropelado.
O homem reconheceu-o mas nada disse, e Pedro, nervoso, ia deixando cair os bolinhos.
Mal sabia ele que tinha sido visto pelo seu novo vizinho a empurrar as notas para dentro da mochila e que, numa tentativa de ficar com o dinheiro, este o tentara atropelar.
Quando foi para casa, contou à mãe que tinha encontrado todas aquelas notas. Ela achou por bem que ele as fosse entregar à polícia, conselho que decidiu seguir. No entanto, ao sair de casa foi visto pelo vizinho a transportar o peluche, que achou a atitude muito estranha para um rapaz daquela idade e por isso decidiu segui-lo.
Sem saber que o perseguiam, Pedro ia apressadamente em direção à polícia, para entregar todo aquele dinheiro que estava escondido no peluche. O seu vizinho estava atento a cada passo dele, esperando o momento certo para o surpreender e roubar-lhe o peluche.
Àquela hora da noite, quando seguia por um caminho escuro, Pedro olhou para trás e reparou que estava a ser seguido por alguém. Por isso resolveu correr para chegar mais depressa à polícia e ver-se livre daquele dinheiro. Com a intenção de o roubar, o homem começou também a correr, e conseguiu ultrapassá-lo e bloquear-lhe o caminho. Foi então que, com um ar maléfico, disse:
- Apanhei-te!
- O que é que o senhor quer? - disse Pedro, com um ar assustado.
- Onde é que está o dinheiro? – perguntou o novo vizinho, agarrando-o pelo braço.
- Eu não sei do que é que o senhor está a falar! Tire as suas mãos de cima de mim!
Mostrando-se determinado em roubar o peluche, o vizinho atirou-o ao chão. No meio de tanta agressividade, Pedro não conseguiu deter o homem, e assim, este conseguiu o que queria. Satisfeito, correu em direção ao carro, deixando o rapaz no chão, de mãos a abanar. Este, triste e furioso, pensou em continuar o caminho até à esquadra e participar o roubo, mas a insegurança e o medo de que ninguém acreditasse nele era tanto que decidiu regressar a casa, determinado a contar tudo à mãe. Contudo, para sua surpresa esta não acreditou nele, achando que estava a mentir só para ficar com o dinheiro e que o escondera nalgum sítio antes de chegar a casa.
Muito aborrecido com esta reação, Pedro não era capaz de acreditar, já que tudo lhe estava a correr mal, e naquele momento só pensava em vingar-se do vizinho. Por tudo isto, decidiu tomar medidas mais drásticas e foi visitar o seu amigo Bruno, com a intenção de ver se, juntos, conseguiam imaginar um plano para conseguir resgatar o dinheiro e fazer com que a mãe acreditasse nele.
No meio de tantos pensamentos, Pedro imaginara como seria se ambos, ele e o seu amigo, entrassem às escondidas em casa do novo vizinho e conseguissem resgatar o urso de peluche. Pedro já conhecia o jardim da parte de trás da sua casa, sabendo exatamente por onde entrar e como, e tinha em mente um plano que, a seus olhos, parecia ser o mais rápido e eficaz: entrar pela janela da cave do vizinho, subir para o andar de cima, procurar o urso de peluche e fugir. Talvez fácil demais, pensaram eles.
- O problema é: como vamos tirar o vizinho de dentro de casa? – perguntou o Bruno.
- Não sei, ele costuma estar sempre em casa. A minha mãe está sempre a pedir-me para ir oferecer-lhe bolinhos, e a nós nunca nos dão nada, – desabafou o Pedro.
- Eventualmente vai ter que dar agora: o urso de peluche! – exclamou o Bruno.
Depois de algum tempo a pensar como entrar sem serem vistos, decidiram estudar o horário do vizinho durante dois dias. A que horas saía, para onde ia, durante quanto tempo ficava fora e a que horas voltava. Depois de terem estudado bem o horário, tomaram então a resolução de criar um plano, mas, atrás da porta do quarto de Bruno, a sua mãe ouvira tudo, e abrira a porta de repente, olhando de maneira desconfiada, e preparando-se para dizer qualquer coisa.
Quando o Pedro e o seu amigo Bruno decidiram ir espiar o vizinho maléfico com o objetivo de roubar o peluche que continha todo o dinheiro, descobriram que o homem era ainda pior do que imaginavam… Quando estava quase a anoitecer, foram à socapa espreitar pela janela, apesar do enorme medo de serem apanhados, até que Bruno exclamou:
- Pedro! Temos que ir imediatamente embora! Este homem é completamente doido – dizia ele, aterrorizado.
- Mas o que é que aconteceu?
A cada palavra que saía da boca do amigo, Pedro ficava sem reação possível… Ele tinha avistado corpos espalhados pela casa, enquanto o vizinho maléfico afiava várias facas com um olhar pérfido. Era um assassino em série.
 
Aterrorizados, os dois amigos começaram a correr para longe da casa do homem, mas com tanta pressa e receio não repararam no caixote do lixo no exterior da casa. Pedro tropeçou, fazendo ressoar um barulho que se fez ouvir em grande parte da vizinhança. Agora com ainda mais receio, após o Pedro se ter levantado rapidamente, os dois voltaram a correr ainda mais apressados em direção à casa do Pedro. Ao aproximarem-se da casa, o Bruno virou-se para Pedro e disse-lhe:
- Por agora vamos separar-nos. Vai para casa e não olhes cá para fora. Eu vou a correr até minha casa.
- Está bem, tem cuidado. - Respondeu o Pedro, e depois voltou-se e perguntou - O que fazemos em relação ao que descobrimos?
- Por agora nada… Bem, tem cuidado. Ligo-te quando chegar a casa.
Quando o Pedro entrou em casa ouviu na televisão uma notícia sobre um novo caso de mistério acerca de várias pessoas que tinham desaparecido.

 
[Continuação escrita pelo Guilherme Dias]

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

História em continuação - episódio 10

Quando vinha da escola pelo atalho do costume, um caminho que cortava pelo meio de um terreno meio selvagem que no inverno ficava empapado de lama, o Pedro deu com um pedregulho que não lhe era familiar naquele sítio. Das tantas e tantas vezes que por ali tinha passado já conhecia todas as pedras do caminho, ao ponto de quase as tratar pelo nome.  Com algum esforço, revirou-o e deu com uma data de maços de notas de 500 euros. Nunca tinha visto sequer uma nota de quinhentos, quanto mais uma quantidade destas. De quem seria aquele dinheiro? Quem o teria ali deixado? Quanto é que estaria ali no total? Uma fortuna, certamente.

Olhou para um lado e outro para ver se não vinha ninguém e se não estava a ser observado. Agachou-se e colocou a sua mochila ao lado dos maços. Começou então a empurrá-los para o seu interior.

Depois de tudo muito bem arrumado, o Pedro seguiu pelo seu caminho habitual, em direção a casa. Com os fones nos ouvidos, tentava o seu melhor para evitar pensar na pesada quantidade de dinheiro que guardava consigo dentro da mochila.

Mas era tão difícil… No meio de um turbilhão de pensamentos, entendeu que estava mais perto ainda do que pensava de chegar ao seu destino. E no fim, de tão distraído que ia, a pensar em não pensar, quase foi atropelado por um carro que passava na rua. A passadeira estava claramente à sua frente, mas ia tão distraído que até se esqueceu de ver se vinha algum carro para poder no fim atravessar a rua. O susto, pelo menos, pareceu trazê-lo de volta à realidade. Talvez isso tivesse acontecido devido à buzinadela estridente que ouviu, ou talvez pelo olhar fixo do condutor que não saía de cima dele, mesmo depois de Pedro ter atravessado a passadeira e ficar mais e mais perto de casa.- Mas que mal disposto… - murmurou o rapaz.

Apesar do susto, o Pedro continuou absorvido nos seus pensamentos. Que atitude iria ter quando chegasse a casa? Contava aos pais? Guardava o dinheiro num lugar seguro ou entregava-o simplesmente à polícia? Tantas questões e nenhuma resposta.

Com estas dúvidas na sua cabeça, o rapaz relembrou o olhar fixo do condutor, não imaginando sequer que este o continuava a perseguir. Ao chegar a casa e estando sozinho, foi a correr para o quarto, fechando a porta. Sentou-se na cama, abriu a mochila e retirou o dinheiro de dentro dela, arregalando os olhos:- Onde irei guardar este dinheiro todo? Não me recordo de ter apanhado tanto. Fixando o olhar no monte de dinheiro, decidiu ir buscar uma folha e uma caneta, para fazer uma lista das ideias que tinha, mas eram tantas que não sabia por onde começar.

Sentou-se em frente à secretária e rapidamente começou a passar para o papel todas as ideias que lhe surgiam:

• “Fazer uma viagem pelo mundo;”

• “Ajudar a minha família;”

• “Ter uma grande casa...”

Estava de tal forma contente que até parecia uma criança dentro de uma loja de doces.

A excitação era tanta, devido à possibilidade de puder vir a concretizar todos os seus sonhos, que até se esqueceu que ainda tinha que resolver um problema: onde iria esconder as notas?

De repente veio-lhe à memória a imagem do condutor que quase o tinha atropelado. Sentiu um arrepio. Algo lhe dizia que aquele homem não era boa pessoa.

Pedro pensou, pensou, voltou a pensar, e não lhe ocorria nenhuma ideia de onde guardar o dinheiro. Olhou para um lado e para o outro, e de repente fez-se um "clique" na cabeça dele. Deitou um olhar fixo ao urso de peluche e teve uma ideia brilhante:

- Ainda bem que a avó me ensinou a coser.

Rapidamente descoseu o peluche e substituiu o algodão pelas notas. Coseu o urso e pensou que assim ninguém iria saber de nada.

À hora do jantar, quando já estavam todos sentados à mesa, a mãe perguntou-lhe:

- Depois podes levar-me aqueles bolinhos ao novo vizinho?

- Estás sempre a dar coisas aos outros, mãe. Já viste que ninguém te dá nada? - disse ele.

A mãe, estupefacta com a resposta do filho, disse logo:

 - Eu não faço isto para me darem algo em troca, Pedro! E fico muito triste que penses assim, porque não foi essa a educação que te dei.

Quando acabou de comer, Pedro foi a casa do novo vizinho. Tocou à campainha e, para seu espanto, quem abriu a porta foi o condutor que quase o tinha atropelado.

O homem reconheceu-o mas nada disse, e Pedro, nervoso, ia deixando cair os bolinhos.

Mal sabia ele que tinha sido visto pelo seu novo vizinho a empurrar as notas para dentro da mochila e que, numa tentativa de ficar com o dinheiro, este o tentara atropelar.

Quando foi para casa, contou à mãe que tinha encontrado todas aquelas notas. Ela achou por bem que ele as fosse entregar à polícia, conselho que decidiu seguir. No entanto, ao sair de casa foi visto pelo vizinho a transportar o peluche, que achou a atitude muito estranha para um rapaz daquela idade e por isso decidiu segui-lo.

Sem saber que o perseguiam, Pedro ia apressadamente em direção à polícia, para entregar todo aquele dinheiro que estava escondido no peluche. O seu vizinho estava atento a cada passo dele, esperando o momento certo para o surpreender e roubar-lhe o peluche.

Àquela hora da noite, quando seguia por um caminho escuro, Pedro olhou para trás e reparou que estava a ser seguido por alguém. Por isso resolveu correr para chegar mais depressa à polícia e ver-se livre daquele dinheiro. Com a intenção de o roubar, o homem começou também a correr, e conseguiu ultrapassá-lo e bloquear-lhe o caminho. Foi então que, com um ar maléfico, disse:

- Apanhei-te!

- O que é que o senhor quer? - disse Pedro, com um ar assustado.

- Onde é que está o dinheiro? – perguntou o novo vizinho, agarrando-o pelo braço.

- Eu não sei do que é que o senhor está a falar! Tire as suas mãos de cima de mim!

Mostrando-se determinado em roubar o peluche, o vizinho atirou-o ao chão. No meio de tanta agressividade, Pedro não conseguiu deter o homem, e assim, este conseguiu o que queria. Satisfeito, correu em direção ao carro, deixando o rapaz no chão, de mãos a abanar. Este, triste e furioso, pensou em continuar o caminho até à esquadra e participar o roubo, mas a insegurança e o medo de que ninguém acreditasse nele era tanto que decidiu regressar a casa, determinado a contar tudo à mãe. Contudo, para sua surpresa esta não acreditou nele, achando que estava a mentir só para ficar com o dinheiro e que o escondera nalgum sítio antes de chegar a casa.

    Muito aborrecido com esta reacção, Pedro não era capaz de acreditar, já que tudo lhe estava a correr mal, e naquele momento só pensava em vingar-se do vizinho. Por tudo isto, decidiu tomar medidas mais drásticas e foi visitar o seu amigo Bruno, com a intenção de ver se, juntos, conseguiam imaginar um plano para conseguir resgatar o dinheiro e fazer com que a mãe acreditasse nele.

No meio de tantos pensamentos, Pedro imaginara como seria se ambos, ele e o seu amigo, entrassem às escondidas em casa do novo vizinho e conseguissem resgatar o urso de peluche. Pedro já conhecia o jardim da parte de trás da sua casa, sabendo exatamente por onde entrar e como, e tinha em mente um plano que, a seus olhos, parecia ser o mais rápido e eficaz: entrar pela janela da cave do vizinho, subir para o andar de cima, procurar o urso de peluche e fugir. Talvez fácil demais, pensaram eles.

- O problema é: como vamos tirar o vizinho de dentro de casa? – perguntou o Bruno.

- Não sei, ele costuma estar sempre em casa. A minha mãe está sempre a pedir-me para ir oferecer-lhe bolinhos, e a nós nunca nos dão nada, – desabafou o Pedro.

- Eventualmente vai ter que dar agora: o urso de peluche! – exclamou o Bruno.

Depois de algum tempo a pensar como entrar sem serem vistos, decidiram estudar o horário do vizinho durante dois dias. A que horas saía, para onde ia, durante quanto tempo ficava fora e a que horas voltava. Depois de terem estudado bem o horário, tomaram então a resolução de criar um plano, mas, atrás da porta do quarto de Bruno, a sua mãe ouvira tudo, e abrira a porta de repente, olhando de maneira desconfiada, e preparando-se para dizer qualquer coisa.

Quando o Pedro e o seu amigo Bruno decidiram ir espiar o vizinho maléfico com o objetivo de roubar o peluche que continha todo o dinheiro, descobriram que o homem era ainda pior do que imaginavam… Quando estava quase a anoitecer, foram à socapa espreitar pela janela, apesar do enorme medo de serem apanhados, até que Bruno exclamou:

- Pedro! Temos que ir imediatamente embora! Este homem é completamente doido – dizia ele, aterrorizado.

- Mas o que é que aconteceu?

A cada palavra que saía da boca do amigo, Pedro ficava sem reação possível… Ele tinha avistado corpos espalhados pela casa, enquanto o vizinho maléfico afiava várias facas com um olhar pérfido. Era um assassino em série.

 [Continuação escrita pela Niati]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Orações coordenadas e subordinadas 2

Seguem mais duas ligações para locais onde é possível encontrar alguma informação sobre as orações:

Ligação um.

Ligação dois.

Bom trabalho.

Orações coordenadas e subordinadas

Aqui fica uma ligação para o estudo das orações coordenadas e subordinadas, de acordo com a nova terminologia gramatical.
Bom estudo.